Jornalismo com propósito • Notícias que importam

Empreendedorismo nas favelas cresce após crise da pandemia

Empreendedorismo nas favelas cresce após crise da pandemia

Pesquisa aponta que moradores transformaram necessidade em alternativa de renda diante da crise provocada pela pandemia

A pandemia de COVID-19 impulsionou a criação de milhares de novos negócios nas favelas brasileiras. Levantamento do Data Favela, ligado à Central Única das Favelas (CUFA), revela que 56% dos empreendimentos atualmente ativos nesses territórios foram abertos a partir de 2020, no auge da crise sanitária e econômica.

Crescimento expressivo após 2020

Segundo o estudo, mais da metade dos negócios existentes nas favelas surgiu após o início da pandemia, considerando o período entre fevereiro de 2020 e o fim do estado de emergência em saúde no país.

Desse total:

  • 12% foram criados entre fevereiro de 2020 e abril de 2022, durante os anos mais críticos da pandemia.

  • 44% começaram as atividades a partir de maio de 2022, com a redução das restrições e o início da recuperação econômica.

Os dados indicam que, mesmo após o período mais severo da crise, o movimento de abertura de negócios continuou forte.

Empreender virou alternativa diante da crise

A pandemia provocou demissões, queda na renda e redução das oportunidades formais de trabalho. Diante desse cenário, muitos moradores das comunidades transformaram habilidades pessoais e atividades informais em fonte de renda.

Um exemplo comum é o de pessoas que passaram a vender comidas caseiras. Com o apoio de redes sociais e aplicativos de mensagens, esses empreendedores conseguiram ampliar o alcance e estruturar pequenos negócios.

Perfil dos negócios nas favelas

A pesquisa ouviu cerca de 1.000 empreendedores em diferentes regiões do país. Entre os principais resultados:

  • 51% faturam até R$ 3.040 por mês, operando com margens reduzidas.

  • 45% atuam no setor de alimentação e bebidas — o segmento mais presente nas comunidades.

  • Outros setores incluem beleza, moda e artesanato.

  • 37% iniciaram o negócio com investimento de até R$ 1.520.

Os números mostram que a maioria começou com baixo capital inicial e estrutura enxuta.

Uso de tecnologia e gestão simplificada

Mesmo com recursos limitados, a tecnologia tem papel central no funcionamento desses negócios:

  • 75% utilizam Instagram para divulgação.

  • 58% usam WhatsApp para vendas e relacionamento com clientes.

  • 34% ainda dependem exclusivamente do boca a boca.

Apesar da presença digital, muitos empreendedores mantêm controles financeiros informais, como anotações em cadernos.

Principais motivações para empreender

Entre os motivos mais citados para abrir um negócio estão:

  • Desejo de independência (45%)

  • Necessidade econômica, especialmente após perda de emprego (29%)

  • Falta de oportunidades formais (26%)

  • Identificação de oportunidades de mercado (18%)

Os dados mostram que o empreendedorismo nas favelas mistura necessidade e iniciativa.

Desafios e perspectivas

O crescimento dos negócios demonstra resiliência, mas os desafios são relevantes:

  • 51% apontam falta de capital de giro.

  • 25% relatam dificuldade de acesso a crédito.

  • A informalidade ainda é alta.

A superação desses obstáculos pode ser determinante para a consolidação desses empreendimentos no longo prazo.

Impacto econômico das favelas

O Data Favela estima que as favelas movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano na economia brasileira. O número reforça que empreender nesses territórios não é apenas uma alternativa individual — trata-se de um importante motor econômico nacional.

A crise desencadeada pela COVID-19 acelerou um processo de reinvenção econômica nas comunidades. Para muitos moradores, empreender deixou de ser apenas complemento de renda e passou a ser estratégia de sobrevivência — e, cada vez mais, de crescimento.

Nahiana Marano

Nahiana Marano

nahiana@jornalaborda.com.br

Ver todos os artigos

Comentários

Seja o primeiro a comentar!

Deixe um comentário

Nossos Parceiros

Empresas e organizações que apoiam nosso trabalho